Poderia ter sido diferente
- Pedro Prado

- May 30, 2021
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Um relato de quem vivenciou o trabalho infantil, a agressão física e as dores de ser analfabeto no Brasil

– Pedro, posso passar um café para a gente?
Você já sabe que o papo vai ser bom quando é recebido assim, na simplicidade de alguém que dedica seu tempo a quem bate à porta. Simplicidade com que Helena Ramos, uma senhde pouco mais de setenta anos, de cabelos avermelhados e um sorriso tímido, me recebeu na casa dela. Mas, para já nos acostumarmos, a chamaremos de Lena, como ela mesma prefere se apresentar.
– Não precisa se preocupar, Lena. – Respondi.
No quintal grande, plantas e hortaliças, alguns pés de frutas e muitos cachorros.
– É para eu não me sentir sozinha.
Lena não teve filhos, se divorciou e a maior parte de sua família se encontra em São Paulo (SP). Porém, ela diz não ser triste por isso. Conta que desde cedo aprendeu a se virar sozinha, a aproveitar a própria companhia e, hoje em dia, vê a solidão em que vive como seu merecido descanso.
Nos conhecemos por meio de meu padrasto, sobrinho de Lena. Tivemos poucos contatos, mas o suficiente para saber que ela era curiosa por quem escrevia – escritores, professores, jornalistas… Foi assim que ela insistiu tanto pela minha visita, um estudante de jornalismo que também não esconde seu fascínio pela escrita. Meu padrasto era professor; por isso, eles eram tão próximos. Mas, pelos vieses da vida, ela é analfabeta, e cheia de curiosidade pelas palavras. Segue, aqui, um pouco da história de Lena.
***
– Lena, como foi a sua infância? – Começo, despretensiosamente, nossa entrevista.
– Eu nasci em Uberlândia, em 43, 27 de julho de 1943. E… a minha infância foi de muita pobreza, nós éramos muito pobres. Meu pai teve muitos filhos. Nove. Como era a segunda, fui eu quem ajudei minha mãe a cuidar dos menores quando ela saía para trabalhar, para passar roupa e ajudar nas contas de casa.
Ela deu uma pausa. De início, parecia um instante para relembrar os fatos. O olhar entregou, uma lágrima escorreu, sua voz continuou.
Lena contou que sua carreira como costureira começou porque algumas de suas irmãs trabalhavam na casa de uma senhora sozinha, casada, que o marido a deixou para trabalhar em São Paulo (SP). Essa senhora tinha uma costureira, mas que passou a não dar conta do serviço sozinha. Por isso, as irmãs indicaram Lena para trabalhar lá também. Com 18 anos, ainda analfabeta e sem saber nada de costura, ela aceitou e começou a aprender o que viria a se tornar seu sustento.
– E sabe como eu fiz para aprender a tecer? Essa senhora para quem eu trabalhava tinha uns livros em francês de costura… eu não sabia francês, mas as imagens davam para entender. Ela até me ensinou umas palavras… À gauche, à droite, aiguille.
À esquerda, à direita, agulha. Ainda encantada com a ideia dos livros em francês, ela fazia um quadrado com os dedos, simulando seu formato, e depois mostrou o que seria a grossura da lombada, o que eu diria que umas 600 páginas.
– E então, de uma hora pra outra, minha irmã mais velha colocou na cabeça que tinha que ir para São Paulo, trabalhar lá. Minha mãe não só aceitou a ideia como disse que eu iria junto. Estava quase voltando aos estudos. Tive que desistir.
Um pesar nas suas palavras. Por mais que gostasse do que fazia, não era pelo trabalho que ela queria ficar, era pela escola. Os irmãos mais novos ficavam na escola, até como forma de ajudar para que os mais velhos pudessem trabalhar e garantir um sustento. O exemplo dos estudos ela tinha em casa, mas parecia que, num mesmo teto, poderiam morar realidades muito diferentes.
– Tentei voltar aos estudos em São Paulo, mas não consegui por causa da idade. Eu já tinha por volta de 23 anos. Então, a vida foi indo...
Em São Paulo, havia trabalhos para se ganhar menos, e ser analfabeto era um motivo para justificar isso. A costura já não era mais um rumo para a vida dela. Era o trabalho que desse para fazer. Ela não estava feliz assim, no entanto, era preciso se ter um salário.
– Minha irmã e eu começamos a trabalhar em uma loja de bijuterias na [Rua] 25 de março. Mas aí veio a Ditadura [Militar] e o movimento caiu. Não vinha mais produtos de fora do país pra vender depois que proibiram a importação. Muita gente fechou as portas e passou fome.
E esse foi o fator que fez Lena decidir de vez voltar para o interior, Uberlândia (MG), nem sozinha. E, assim, cumpriu. Na cidade mineira, ela conseguiu voltar a trabalhar com a sua paixão, a costura, e até chegou a integrar ao Sindicato das Costureiras da cidade. Mas esse período também marcou um dos piores episódios da vida dela.
– Patrão nenhum quer que você esteja no Sindicato, lutando pelos seus direitos, ainda mais se você não sabe ler. Eles falam que lá [no Sindicato] ficavam botando coisa na nossa cabeça. Pra piorar, no Sindicato, tinham umas moças que viviam fofocando sobre
Lena conta que, mesmo com uma vida difícil, até então ninguém havia levantado a mão para ela. O surpreendente aconteceu dentro do próprio local de trabalho, pela patroa. Ela foi ao hospital para fazer o exame de corpo e delito, pois já tinha em mente abrir um processo contra a agressora, e assim o fez.

– Então, eu abri um processo contra ela na Justiça. Para ela pagar pelo o que ela fez. As pessoas acham que, por a gente não saber ler, a gente não conhece dos nossos direitos. Eu me senti violada, humilhada. Foram alguns anos de processo, mas que valeram a pena. Eu fiz meu papel.
A história teve seu fim com a ex-patroa sentenciada a pagar uma indenização à Lena, mas não foi muito, ela contou. Entretanto, o mais importante não era o valor, e sim a lição que ela tirou disso: de mostrar o quão forte Lena poderia ser.
Após este incidente e já passados seus 50 anos, Lena achou que era o momento de descansar. Não que a agressão tenha a desmotivado, mas ela confessa que queria que as coisas tivessem sido diferentes, que os estudos teriam a poupado um pouco das adversidades da vida.
– Há alguns anos eu decidi começar aulas de pintura e ficar só nisso, bordado e pintura. Essa é minha aposentadoria de tudo que vivi, a que eu mereço.
***
Quanto mais conversávamos naquele dia, mais claro ficava para mim que respeitar a vivência de Lena era mais importante do que ceder ao insistente pensamento do: "E se ela tivesse concluído os estudos?". Ela não concluiu, e isso é um fato.
Escutar Lena, falar com Lena e escrever sobre a Lena foi o mais próximo que estive em vivenciar a história do analfabetismo no Brasil. Mas, ainda assim, sentir na pele suas consequências é algo muito mais único, as quais espero que Lena tenha mostrado o quão dolorosas podem ser.
O analfabetismo existe e é uma realidade muito próxima de nós. Pode estar presente num ciclo de amizades ou até mesmo familiar, pelas ruas, comércios, lugares por onde vagamos. E, junto a história de Lena, há milhões de tantas outras. Falar sobre essa realidade é dar nome e endereço ao problema, e Lena é uma das muitas que não só gostariam que tudo fosse diferente, mas que mereciam.
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