Analfabetismo de Resistência: a narrativa daqueles que resistem à alfabetização
- Pedro de Paula

- May 30, 2021
- 5 min read
Apesar de ainda ser pouco discutido, esse movimento é motivo de preocupação entre os especialistas
O Brasil é um país reconhecido internacionalmente por suas belezas, comidas e festas. Sempre bem falado quanto à simpatia e diversidade do seu povo. Se destaca também quando o assunto é ciência e inovação. No entanto, apesar de toda essa positividade, também é corriqueiramente lembrado pela falta de segurança, pelas desigualdades sociais e pelos poucos investimentos em educação.
De acordo com uma pesquisa realizada em 2020 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil é o nono país mais desigual do mundo, realidade que não é nova, vivida pelo brasileiro há décadas, séculos. Flávio Muniz, historiador e mestre em História Social pela Universidade Federal de Uberlândia, afirma que o Brasil foi moldado para ser um país desigual e segregacionista.
“O Brasil é uma nação que foi formada sob o signo da desigualdade, então, as problemáticas sociais que o país vive atualmente não são recentes. Elas surgem a partir de um processo colonizador que objetivava transformar esse território em uma periferia de Portugal”, explica Muniz. “A estrutura desenvolvida no período colonial, além de ainda estar fortemente presente na sociedade brasileira, é reforçada governo após governo. Um exemplo disso está nos investimentos na educação brasileira que apenas diminuem com o passar dos anos``, ressalta.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2020, 11 milhões de brasileiros são analfabetos, pessoas que, de acordo com o IBGE, não sabem ler nem escrever. Esses dados, além de indicadores dos níveis da educação brasileira, revelam a limitação das políticas públicas voltadas para o combate ao analfabetismo e para estratégias de alfabetização que vigoram no país já há algum tempo, como o Brasil Alfabetizado e o Plano Nacional de Educação (PNE).
Criado em 2014, o PNE apresenta como primeira diretriz a erradicação do analfabetismo no Brasil. De acordo com as metas presentes no Plano, o Brasil deveria reduzir em 50% o número de analfabetos funcionais e erradicar o número de analfabetos absolutos até 2024. As pesquisas atuais sobre o assunto não só mostram que essas metas ainda estão longe de serem atingidas, como também revelam o quanto ainda faltam políticas públicas, investimentos e atenção voltados para esse assunto.
Segundo Flávio Muniz, a falta de investimento na Educação é uma forma que o governo encontrou para manter o sistema estabelecido no período colonial. “Se a Educação é uma ferramenta de transformação e libertação, por que o Estado Brasileiro investiria nesse setor sabendo que isso poderia romper com o sistema atual?”, problematiza.
Um claro exemplo disso acontece atualmente, momento em que o governo insiste na desvalorização da ciência e da educação, setores sempre e cada vez mais necessários para a população. De acordo com o Ministério da Educação (MEC), 2020 foi o ano com menor investimento em educação básica desde 2010, como também nas áreas de ciência e tecnologia. No entanto, mesmo com os altos cortes, os pesquisadores brasileiros conseguiram desenvolver uma vacina para o vírus COVID-19.

A pedagoga Silvia Colello, pesquisadora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), também ressalta que as desigualdades sociais e o analfabetismo estão diretamente interligados. Ela argumenta que entre as desculpas usadas para não se investir em Educação, sobretudo em comunidades menos favorecidas, estão os mitos em torno da aprendizagem.
“Esses mitos de carência e de culpabilização estão enraizados na sociedade. Então, quando o sujeito não aprende, a culpa é da família, a culpa é do pai presidiário, a culpa é da falta de carinho por parte dos familiares e por conta do local onde a pessoa mora”, argumenta. “Essas pessoas menos privilegiadas, elas convivem com baixos níveis de letramento, convivem com pais analfabetos e mães semi alfabetizadas, mas isso não quer dizer que elas são incapazes de aprender” enfatiza Colello.
São nesses espaços, por vezes esquecidos pelo governo brasileiro, em que há baixo nível de letramento e as necessidades básicas são sempre uma preocupação, que surge o Analfabetismo de Resistência. Diferentemente do Analfabetismo Funcional e o Analfabetismo Absoluto, o Analfabetismo de Resistência se refere ao grupo de pessoas que não compreendem as funcionalidades e benefícios da língua formal e, por isso, preferem continuar como analfabetos. É uma escolha muitas vezes involuntária, uma vez que, para esses grupos, a alfabetização pode significar uma grande perda de identidade e, por isso, eles resistem a esse processo.
De acordo com Colello, há crianças e adultos que, por viverem em um ambiente de baixo letramento, têm medo de aprender a ler e a escrever. Colello explica que esses sujeitos desenvolvem uma resistência que é quase que inconsciente. “É mais ou menos assim: ‘Se eu for para escola para aprender esse negócio de ler e escrever, que não existe na minha vivência, com que cara eu vou chegar lá em casa? Superar meus pais analfabetos não seria contrariar as minhas origens?’ É assim que um Analfabeto de Resistência pensa”, exemplifica a pedagoga.
O analfabetismo, por si só, já é uma questão pouco problematizada na mídia, menos ainda é tratado sobre o Analfabetismo de Resistência. Nesse contexto, como qualquer outra deficiência social, o Estado precisa tomar um papel ativo no planejamento de investimentos e ações no que se refere a essa situação, principalmente na perspectiva das periferias. Alguns questionamentos sobre a temática surgem, tais como: Como amenizar esse tipo de comportamento? Qual o papel do professor nessa história? Qual o posicionamento das instituições de ensino frente a essa problemática?
O pedagogo Jemmerson Antônio de Souza, que há 10 anos trabalha em instituições públicas em Uberlândia (MG), afirma que já lidou com analfabetos de resistência e que o processo de alfabetização, nesses casos, é ainda mais desafiador. Um dos motivos é a Escola não levar em consideração o universo cultural do aluno, então, essa preocupação sempre fica à cargo de cada professor.
“A Escola como instituição, na verdade, faz o que a Secretaria da Educação orienta e o que a Secretaria orienta, muitas vezes, é considerando realidades gerais, e não específicas" explica o pedagogo. “A Escola até tenta fugir um pouco disso, mas por questões de hierarquia, ela acaba falhando nesse sentido. Então, acredito que entender o universo cultural do aluno e suas vivências acaba sendo uma responsabilidade do Professor”.
Jemmerson expõe que, para lidar com alunos que apresentem esse tipo de comportamento, é preciso entender a realidade individual de cada um e inserir referências da vida desses sujeitos ao longo do processo de alfabetização.“Busco mostrar que a gente pode preservar aquilo que é bacana e interessante, mas que, se existem questões que podem ser modificadas dentro do ambiente em que vivemos, com esse conhecimento que a Escola vem trazendo, a gente pode tentar modificar”.
Segundo o pedagogo, além de explicar para o analfabeto de resistência que a alfabetização não irá interferir na sua identidade, é imprescindível demonstrar de que forma esse processo influencia no comportamento do indivíduo. “Um exemplo que uso muito na sala de aula é o seguinte: ‘Eu moro na periferia e tenho formação acadêmica, mas isso não me faz melhor que alguém que não é formado. Então, eu não chego em casa apontando os erros cotidianos dos meus familiares, busco apenas não reproduzir”, pondera Jemmerson.



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