“O risco de se abrir as escolas é elas voltarem a ser como eram antes”
- Vanessa Gianotti
- May 30, 2021
- 7 min read
Updated: May 31, 2021
Reflexões sobre as práticas da alfabetização no Brasil
Os problemas educacionais do Brasil não são uma novidade. Mandato após mandato, governantes fazem promessas sobre o quadro educacional brasileiro. Essa agenda, possivelmente, é uma constante na política por ser considerada de grande importância pela sociedade civil em geral. “Mais Matemática, Ciências e Português, sem doutrinação e sexualização precoce”, dizia o plano de Bolsonaro para a Educação quando em campanha em 2018, já Dilma Rousseff prometia, entre outras coisas, em 2010, “criar escolas técnicas nos municípios com mais de 50 mil habitantes e em polos regionais e construir 6.000 creches e pré-escolas no país”.
Mas fato é que o Brasil sempre apresentou problemas nesse setor, como visto na reportagem “O retrato do analfabetismo e alfabetismo no Brasil em dados”, publicada aqui no Palavras Cruzadas. Apesar das melhorias no índice na taxa de analfabetos com o tempo, outros problemas que envolvem a educação e a alfabetização sempre apareciam, como a baixa remuneração dos professores do ensino básico, o atraso de pagamentos de salário desta classe em escolas públicas, escolas depredadas, dificuldade de acesso a escolas por pessoas da zona rural, políticas públicas ineficientes.
De acordo com O Ph.D. em Educação pela Florida State University, João Batista Oliveira, até a década de 1970, o Brasil priorizava que qualquer criança no final do primeiro ano do fundamental fosse capaz de ler e escrever, mas essa consciência e objetivo mudaram com o tempo. “Isso foi perdido um pouco nas discussões ideológicas e pedagógicas do Brasil. E agora está voltando essa consciência de que é fundamental, estar bem previsto no currículo e ser efetivamente ensinado, porque a alfabetização é um instrumento de trabalho, saber as operações, a tabuada, para saber fazer matemática. Então, são ferramentas essenciais que o Brasil e alguns países perderam de vista porque confundiu-se o conceito de alfabetização com muitas outras coisas, e aí saiu do trilho e já passou da hora de voltar“, opina o professor.
Em 1997, o governo criou os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), uma série de documentos que visavam a determinação de uma grade escolar unificada que objetivava a não transmissão de conhecimentos, mas práticas que encaminhassem os alunos até a aprendizagem. Segundo Oliveira, as PCN foram criadas a partir daquilo que era ensinado nas e pelas Faculdades de Educação, mas esses parâmetros eram “ineficientes e equivocados”, pois não ensinavam corretamente o que os alunos precisavam aprender para serem realmente alfabetizados.
Ainda de acordo com o professor, esse modelo continuou a ser aplicado até recentemente, quando em 2019 o governo baixou um decreto que coloca “a alfabetização nos termos científicos, nos termos daquilo que deve ser”, mas há uma resistência forte dos educadores e daqueles que seguem a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) em aceitar as novas diretrizes, esses profissionais estariam “contra a ideia de levar a sério a alfabetização”.
O decreto mencionado pelo professor é o de nº 9.765, de 11 de abril de 2019, também chamado de Política Nacional de Alfabetização (PNA). No site da PNA, na seção: “O que é?”, o ensino da leitura e escrita atrelados a evidências científicas são exaltados: “A ciência cognitiva da leitura apresenta um conjunto vigoroso de evidências sobre como as pessoas aprendem a ler e a escrever e indica os caminhos mais eficazes para o ensino da leitura e da escrita. A PNA pretende inserir o Brasil no rol de países que escolheram a ciência como fundamento na elaboração de suas políticas públicas de alfabetização, levando para a sala de aula os achados das ciências cognitivas e promovendo, em consonância com o pacto federativo, as práticas de alfabetização mais eficazes, a fim de criar melhores condições para o ensino e a aprendizagem das habilidades de leitura e de escrita em todo o país”.

Um exemplo de profissional da educação que se opõe ao PNA é a doutora em educação pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Fernanda Duarte Araújo Silva. Ela diz acreditar que o decreto “representa grandes riscos de retrocessos e rupturas claramente expressos para o campo da alfabetização”. Silva afirma que o decreto não leva em consideração os estudiosos da área, sendo uma política unilateral e que ainda se coloca em destaque como um programa científico, “como se até então nós não tivéssemos feito ciência”. Para a estudiosa, o Ministério da Educação exige a utilização de um único método para alfabetizar, o fônico, mas que ele já foi aplicado no país e não teve o sucesso esperado.
Silva também faz parte da Associação Brasileira de Alfabetização (Abalf) e afirma que o grupo se opõe a essa nova política, pois “ela vem desconstruindo tudo o que nós temos estudado, pesquisado. Coloca a autonomia do professor em risco, que é garantida na Constituição de 1988, na LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação]. Temos tentado lutar contra a imposição dessa política que vem com tantos retrocessos para a área”, relata.
De acordo com os dados do IBGE, o Brasil nos últimos anos, avança lentamente no combate ao analfabetismo, em especial na região Nordeste, em que 13% da população não sabe ler nem escrever. Nesse sentido, os professores concordam que as desigualdades sociais e econômicas impactam diretamente na alfabetização das pessoas. “É diferente uma criança que nasce num meio em que os pais têm um nível universitário de crianças que não tem, porque esse desenvolvimento da linguagem é de fora para dentro. É social, primeiro, para depois ser individual. Muitas vezes, essas crianças entram na escola com níveis muito diferentes de estímulos e que vão fazer toda a diferença no período de alfabetização”, explica Silva.
Os desafios e a Pandemia
Com a pandemia do novo coronavírus, problemas que já existiam, como as desigualdades sociais, permanecem e novos aparecem. Além da adaptação de todo um espaço que era físico para o digital, os professores seguem trabalhando exaustivamente e os alunos possuem ainda mais trabalhos. É preciso lembrar, que além dos jovens, crianças pequenas também estão participando desse momento incomum da educação.
O professor, que antes segurava na mão do aluno para guiá-lo na escrita das letrinhas do alfabeto, agora precisa ensinar tudo através das telas e com a colaboração dos pais, quando se fazem presentes e dominam a escrita, pois também há pais que não são alfabetizados. Para Silva, durante a pandemia, o valor dos profissionais da educação tem sido cada vez mais desvelado. “A gente tem visto a importância da escola, a importância do professor. Ele é responsável por organizar essa apresentação do mundo, do conhecimento científico sistematizado. Quando a gente pensa na alfabetização, a gente pensa nesse olhar sensível, nessa avaliação que é processual, é formativa”, reflete. Para a pesquisadora, durante esse período, há boas práticas, como a circulação de livros digitais de qualidade entre alunos e professores, mas também há retrocessos, como professores que apenas pedem a entrega de atividades. Para ela, ainda não é possível mensurar o que o período remoto representará para o ensino educacional brasileiro.

Já Oliveira diz acreditar que a resposta da rede privada de ensino foi rápida e eficiente, com uma tentativa de formação digital imediata para os professores no primeiro momento traumático, mas que cada realidade escolar é uma e que ainda não é possível ter um balanço das ações nesse período pandêmico. “Você tem lugares que a resposta é mais estruturada, organizada e tem locais que é o caos. Há lugares que não tem nada! No Brasil, sobretudo nas escolas privadas, houve uma reação rápida, vigorosa e forte. Num primeiro momento traumático, [...] os professores tiveram que aprender uma metodologia nova com uma forma de relacionamento diferente com o aluno”, avalia.
Renata Dantas é mãe de dois filhos que estudam na rede privada de Rio Verde (GO), uma menina de 13 anos de idade e um garoto de 8 anos. Ela conta que a filha mais velha não teve tantas dificuldades com a mudança para o sistema remoto de ensino no ano passado, pois já tinha uma autonomia nos estudos. Por outro lado, o caçula precisava de atenção constante durante as aulas e na realização das atividades. “Eu tinha que ficar ao lado dele para acompanhar, para ajudar durante as aulas, para reforçar com ele o conteúdo, já que isso não era feito presencialmente pela professora”, relata Dantas. Já neste ano, a escola adotou o sistema híbrido “um por um”, ou seja, um dia as aulas são feitas presencialmente e no outro de maneira remota. A mãe afirma que o filho já adquiriu, com a experiência do ano passado, total autonomia dos estudos e que são raras as vezes em que ele solicita a ajuda dela, algo que era uma constante em 2020.
Mas há quem discorde dessa volta às aulas antecipadas. Silva defende que o ensino presencial só ocorra quando houver uma segurança definitiva para toda a comunidade escolar. E que num primeiro momento, essa volta seja acolhedora. “Organizar tempos e espaços, diálogos com essas famílias. Não tem como a gente pensar o trabalho e planejar sem esse olhar atento. Esse olhar que é humano”. Pois além de ensinar, os professores e a escola se integram na vida de cada família, e essa conexão e entendimento da realidade da criança fazem toda a diferença na sua qualidade educacional. De acordo com a professora, esse contato durante a pandemia se tornou distante e muito difícil de ser realizado, fazendo que quando ocorrer o retorno definitivo às aulas esse processo seja revisto, pois a pandemia deixou “marcas que vão ficar para a maioria dos brasileiros”.
Oliveira acredita que esse é um momento de refletir a estrutura da educação, pensar no futuro e não continuar para sempre esperando os problemas aparecerem para depois corrigi-los. “A escola tem que aprender a ter plano A, B e C daqui para frente porque essas coisas podem voltar a acontecer, mas a escola não está pensando nem no A, muito menos no B e no C”, opina. Para o estudioso, nem mesmo o modelo híbrido deve ser considerado enquanto não ocorra um planejamento para o futuro da educação. “O risco de se abrir as escolas, é elas voltarem a ser como eram antes”, finaliza.



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